sábado, 30 de abril de 2011

O Zero


O Zero sentia-se vazio. Olhava para si mesmo e não gostava do que via: era aquela enorme barriga; era a incapacidade de sobressair; era a falta de um carácter vincado...
Achava mesmo que não valia nada. Já muitas vezes tentara ser esguio como o 1, elegante como o 4 ou belo como o 7, mas nem sequer conseguia a pequena proeza de esticar uma haste para se assemelhar ao 6 ou ao 9.


Era realmente uma nulidade. Mas o pior de tudo nem sequer era o aspecto, pois já se tinha habituado a isso e os outros também nunca o tinham visto de outra forma. Não, o pior nem era olhar-se ao espelho: o pior era quando olhava para dentro de si mesmo. Não valia nada, pronto! Era isso. Nunca tinha feito nada de que se pudesse realmente orgulhar; tinha as mãos vazias; nunca deixaria o nome na história ou marcas no mundo.
Não passava de um zero.


Mas, então, por que razão tinha consigo todos aqueles sonhos, aquele desejo de grandeza, a vontade de se lançar a tarefas gigantescas? Era um zero e sentia dentro de si uma enorme tendência para o infinito...


Ora, isto - pensava ele - não tinha lógica nenhuma. Era até contraditório. E filosofava: Via-se logo que os números tinham sido uma invenção dos homens. Por isso não batiam certo. Se tivessem sido obra de Deus, tudo teria sido diferente. Sendo assim, paciência...


Mas o Zero estava de longe de se resignar com a situação. Alguma coisa lá por dentro se recusava a aceitar pacificamente estas filosofias, ainda que elas servissem perfeitamente como justificação para a sua nulidade e para a vida preguiçosa que levava.
E, no fim de contas, talvez os algarismos não fossem uma invenção dos homens.


Muitas vezes dizia para si mesmo que não podia fugir à sua natureza, à incapacidade com que nascera. Sentindo-se incapaz do esforço de alcançar o infinito, que chamava por ele, repetia cinquenta vezes por dia que o infinito não existia. Para se convencer a si próprio. Para se poder entregar tranquilamente à doçura de uma vida sem montanhas para subir.
No entanto, aquela doçura acabava por o maçar. Tornava-se amarga: não na boca, mas num lugar qualquer que ele não sabia identificar com exactidão. Ora, aquilo doía-lhe. Era como se tomasse veneno.


O Zero sabia a solução, a resposta, a verdade, mas fugia de pensar nisso. Também lhe doía... O Zero sabia que o verdadeiro problema não era a preguiça nem a falta de capacidade. A questão importante era o orgulho.


Sucedia que o orgulho o levava a procurar sempre o primeiro lugar quando se juntava aos outros algarismos para fazerem alguma coisa em conjunto. Conseguia esse lugar porque era o mais forte de todos, mas os outros algarismos não achavam aquilo bem. E quando isso sucedia formava-se uma barreira, uma vírgula, entre ele e os outros. E, assim, com o Zero no primeiro lugar e a vírgula logo a seguir, aquilo que faziam não valia quase nada.


O Zero pressentia que, se aceitasse um dos últimos lugares, tudo seria diferente. Talvez então pudessem, em conjunto, aproximar-se do infinito e até tocar-lhe. Talvez assim se abrissem as portas a todos os sonhos que desde sempre trouxera consigo. Mas teria - assim pensava - de se curvar perante os outros, e baixar a cabeça era para ele uma impossibilidade...


Não vou acabar de contar a história do Zero. Não vou dizer como chegou a entender que para um zero o melhor lugar é o último. Nem como acabou por pedir desculpa aos outros. Nem como conseguiu depois - não sempre, mas muitas vezes - a glória de baixar a cabeça e se colocar no último posto.


É que estas transformações são sempre muito íntimas e dolorosas. Sou amigo do Zero - conheço-o muito bem - e não está certo que revele em público a sua intimidade."

Paulo Geraldo

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Partilhar


Olá meu caros =)
A partir de hoje vou partilhar com todos vocês que lêem aqui o Post It as minhas leituras,ou seja, eu costumo ler muitos livros e revistas, isto tudo coisas da nossa área de conhecimentos. Desta forma mantenho-me actualizada e ocupo o meu tempo livre com coisas que me dão prazer!
E o Partilhar começa já hoje.
Então hoje partilho um pequeno artigo que diz assim:
"Será mesmo dislexia?

Trocar as letras ao escrever e ter dificuldades na compreensão de textos são sintomas, por vezes, comuns, a duas patologias distintas: dislexia e perturbação do processamento auditivo (PPA).
Os especialistas do Gabinete Arte de Comunicar, clínica especializada em reabilita de PPA (www.artecomunicar.com) ajudam a distingui-las:

Perturbação do Processamento Auditivo

O que é?
É uma disfunção auditiva que impede a capacidade de reconhecer e interpretar os sons, tendo como consequência problemas de linguagem e de aprendizagem. Pode ter várias causas: desde a privação de estímulos sonoros nos primeiros anos de vida a problemas congénitos.

Sintomas:

>Distracção excessiva;
>Reacções excessivas a sons intensos;
>Reacção lenta a estímulos auditivos;
>Dificuldade em compreender uma história/texto lido por outra pessoa;
>Dificuldade na localização sonora;
>Dificuldade em pronunciar o"r" e "l";
>Troca de letras na escrita;
>Má caligrafia;
>Dificuldade em memorizar a informação ouvida;
>Pedido de repetição da informação auditiva
>Agitação ou calma excessivas.

Dislexia

O que é?

Consiste numa dificuldade de aprendizagem específica provocada por uma disfunção neurológica.

Sintomas:

>Curtos períodos de atenção para actividades de leitura e escrita;
>Dificuldade em expressar-se oralmente;
>Dificuldade em compreender textos lidos pelo próprio;
>Dificuldade de orientação de espaço e tempo;
>Lentidão na aprendizagem da leitura e da escrita;
>Troca de letras na escrita;
>Má caligrafia;
>Vocabulário curto
>Dificuldades de memorização.

(in Revista Prevenir, nº60, Outubro 2010, Mensal)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Impor abandono da sesta é uma “tortura” praticada em muitos infantários (in Público)

Impor uma idade limite para a criança abandonar a sesta no jardim-de-infância é habitual em Portugal, mas pediatras e especialistas avisam que pode representar uma “tortura” e ser indicador de má qualidade de uma instituição.

Notícia completa

Ora bem:
Em primeiro lugar nem sequer sabia da existência de uma legislação que se fizesse para um assunto destes, e que impõe uma mudança, onde ela deveria ser feita de acordo com as necessidades de cada criança.
Assim como também estou de acordo, que qualquer jardim-de-infância, público ou privado, tivesse como requisitos obrigatórios a existência de salas específicas para a sesta.
Há de facto muitas crianças que não dormem a sesta e há aquelas que prolongam mais a sua sesta, não há ritmos iguais.
Dai que depois haja crianças que vão para o lanche/actividades e adormeçam a meio.
Não seria pedir muito, mas como isto, que é só um pequeno exemplo, acredito que haja problemas mais graves nos nossos jardins-de infância do que a obrigatoriedade de se impor o "corte da sesta" para que desta forma se possam cumprir as horas lectivas propostas pelos ministérios.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Amigos Imaginários


«"A Rita tinha quatro anos e já gostava de ajudar a mãe a pôr a mesa, para os pais, para ela e para a irmã, a Berta, de seis anos. Um dia, com os quatro pratos e talheres na mesa, a Rita disse, com o ar mais natural: 'Falta o lugar da Analó.'

A mãe julgou ter entendido mal e, apontando para os lugares, repetiu, porque achava importante ensinar a filha a pôr a mesa: 'Pai, mãe, Berta e Rita.' É o que eu estou a dizer mãe. Falta o lugar da Analó!'.

A mente da mãe reviu e milésimos de segundos todas as bonecas, peluches e livros que tinha no quarto da filha. Analó? Nenhuma, que se lembrasse. Arriscou então: 'Analó, Rita?E quem é?' 'Mãe' - disse a Rita, com expressão de complacência e de compreensão por aquele erro de palmatória maternal - 'A Analó, mãe, a Analó. Está aqui a ajudar-nos a pôr a mesa, acho que também merece comer connosco, ou a mãe não acha?'

A mãe da Rita teve de se sentar e foi incapaz de dizer alguma coisa. Passados uns minutos foi para o quarto desatou a chorar (...).

A Analó era a amiga imaginária da Rita, sua companheira 'real', com quase 'tanta carne e tanto osso' como qualquer um de nós.

E quando tudo foi explicado aos pais, durante uns dias tiveram de se resignar a pôr um prato extra para a Analó, que por sinal detestava brócolos, mas adorava cenoura cozida, exactamente ao contrário de Rita."


O caso é descrito pelo pediatra Mário Cordeiro, no seu "O Livro da Criança", no capítulo que dedica precisamente aos amigos imaginários das crianças que, de acordo com o especialista, "existem mesmo", pelo menos na cabeça delas, e como tal, a sua existência não deve ser negada pelos pais, embora estes também não devam encorajar em demasia.

"Os pais e os educadores devem lidar com os amigos imaginários das crianças de um modo natural, pelo menos até aos seis anos de idade, porque estes existem verdadeiramente na mente da criança e ao serem amigos dela, também são amigos dos pais", explica Mário Cordeiro, salientando que entre os três e os cinco anos de idade é perfeitamente normal que as crianças tenham amigos imaginários.

O seu aparecimento pode dever-se a vários factores, desde a falta de um irmão, à necessidade de experimentar comportamentos que a sua ética diz não serem os melhores, mas não é de todo prejudcial, pode até funcionar como um escape saudável para o stress e, entre outras coisas, a ajudar a criança a combater os seus medos".

Aos poucos a criança acabará por conseguir distinguir por si só o mundo real de um mundo de fantasia por ela criado.

"Embora não haja uma idade definida, é razoável que os amigos imaginários se mantenham presentes na vida da criança até por volta dos seis anos de idade. A partir daí a criança já deve ter noção do que é real e do que é fantasia", refere o pediatra, ressalvando que quando desenvolve este tipo de amizade "na grande maioria dos casos a criança é perfeitamente normal, mas com momentos de vulnerabilidade e de solidão, o que, por si só, não traduz nada de patológico. Só quando esta realidade se mantém depois dos seis anos de idade, ou quando faz desaparecer quase por completo a realidade do dia-a-dia, é que os pais devem ficar atentos ao fenómeno e procurar a ajuda de um profissional. Antes disso não há motivos para preocupações", diz o especialista, que acredita que no momento certo a criança acabará por "matar" o tal amigo, sem dor.»



Como lidar com os amigos imaginários das crianças?




  • ter consciência de que é um fenómeno normal;


  • não negar a sua existência, nem ridicularizar a criança, devendo antes responder-lhe com frases curtas de aprovação, mas não demasiadamente intrusivas;


  • não alimentar demasiado a ideia, ao procurar saber pormenores;


  • dizer: 'um dia era engraçado escreveres isso ou fazeres um livro de desenhos, com o teu amigo', para aproximar a criança da realidade, mas de um modo soft e sem prazo marcado;


  • os pais têm de sentir que este é um modo extremamente inteligente e criativo de a criança se defender e criar factores protectores;


  • as crianças podem também usar os amigos como objectos de descarga de sentimentos meno bons, tais como a raiva ou a angústia;


  • as conversas tidas com os amigos imaginários, e toda a relação que têm com eles, deverão fazer com que os pais reflictam sobre o que os filho expressam, os seus medos e o que eles, pais, poderão corrigir e apoiar;


  • se os amigos se mantêm após os seis anos, se a relação com eles se torna demasiado intensa fazendo esquecer a realidade, então a ajuda de um psicológo será bem-vinda.

Deixo-vos alguns artigos que encontrei no mundo virtual:


Psicologia e Reflexão


Educare


Boa semana**

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Café pode ajudar a tratar depressões


A cafeína pode vir a tratar as doenças de humor, nomeadamente depressões, consideradas um dos mais graves problemas de saúde da sociedade actual, afectando uma em cada quatro pessoas.


Um grupo de investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) de Coimbra afirma ter aberto uma nova linha de investigação centrada nas doenças de humor, na sequência dos seus estudos com café para tratamento de doenças do cérebro.

"Alguns estudos iniciais mostraram que populações de risco, como os enfermeiros dos serviços de urgência, toleram muito melhor ao longo do tempo situações de stress repetido quando consomem café de forma regular, em doses toleráveis e normais, do que profissionais com funções semelhantes, mas que não tomam café regularmente",sublinhou Rodrigo Cunha, da Faculdade de Medicina de Coimbra.

Além dos testes psicológicos, é possível verificar estes resultados em "testes biológicos com os níveis de cortisol, que confirmam esta impressão, de que há um benefício em termos de controlo de humor associado à toma regular de doses moderadas de cafeína".

terça-feira, 18 de maio de 2010

As crianças e os telemóveis

«No dia em que completou 10 anos de idade o pequeno Diogo foi surpreendido pelos pais com o presente pelo qual ansiava desde os sete: um telemóvel.

"Tinhamos acordado só lhe dar o telemóvel quando ele entrasse para o quinto ano, mas acabou por acontecer uns meses antes. Em Março quando chegou o aniversário dele, acabámos por lhe oferecer o tão desejado telemóvel, que no fundo era o presente que ele mais queria", conta a mãe, Lurdes Malcata.


Para o psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá, "a melhor forma que os pais têm de lidar com a insistência dos filhos em relação a esta questão é, pura e simplesmente, dizendo não. As crianças reivindicarem aquilo que querem é perfeitamente normal, fazem o papel delas, o que não é normal é que os pais 'tremam' perante estas reivindicações".


Qual é então a idade recomendada para que as crianças tenham o seu primeiro telemóvel?


O pediatra Mário Cordeiro defende "só deve ter telemóvel quem precisa realmente de um telefone móvel e duvido que uma criança de 12 anos de idade tenha essa necessidade. Se as crianças tiverem tudo demasiado cedo, perdem o gosto pelas coisas que vão conquistando ao longo da vida e isso é muito negativo para o seu desenvolvimento".


Uma opinião partilhada por Eduardo Sá, que defende que "as crianças não devem ter telemóvel antes da pré-adolescência. Só a partir da altura em que começam a ganhar alguma autonomia, nomeadamente em relação à escola, é que me parece razoável que os pais as queiram ter um pouco localizadas e aí faz sentido terem um telemóvel, sendo que é necessário impor regras de utilização desde logo, regras essas que devem ser estabelecidas com bom senso e que devem ser cumpridas à risca, sobretudo pelos pais".


Apesar de não serem ainda conhecidos ao nível científico todos os efeitos negativos decorrendo do uso do telemóvel, a verdade é que a Food and Drug Administration (FDA) a agência norte-americana responsável pela regulação dos aparelhos que emitem radiações, tem aconselhado os fabricantes de telemóveis a terem especial atenção ao impacto das radiofrequências, especialmente em crianças.


Luciana Couto, docente do Departamento de Clínica Geral da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, salienta que "não devemos expor as crianças a radiofrequências e a campos electromagnêticos de que não se conhecem ainda os efeitos a longo prazo. Este é um tema que ainda divide muito a comunidade científica e na revisão dos artigos publicados torna-se imperativo seguir de perto, os possíveis efeitos de saúde que daqui decorrem, particularmente os efeitos a longo prazo", refere a especialista que, tal como Mário Cordeiro e Eduardo Sá, salienta que outro dos principais probelmas associados ao uso do telemóvel desde cedo é o facto das crianças começarem a criar hábitos incorrectos de escrita recorrendo muitas vezes a abreviaturas quando desenvolvem e redigem, por exemplo, um trabalho escolar».


Artigo retirado do jornal Dica da Semana
Post It Psicológico